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Os tristes
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06 de Agosto de 2014 Victor Heringer

Há quanto tempo não ouvimos dizer que um tal sujeito é triste? Estar deprimido é a moda, mas ser triste ninguém mais é. Esquecemos que o antônimo da depressão não é felicidade, mas força de vontade. E toma-lhe remédio para apaziguar a apatia. Nesse processo de confusão conceitual, os tristes ficaram para titia, foram excluídos do catálogo dos homens. Pobres dos tristes, que nunca tiveram remédio.

O triste é um rapaz que sorri tendo vontade de chorar quando lê o jornal. E o jornal sempre péssimo, e o triste nunca aprende a parar de ler jornal. O triste torce pelo América ou pela Portuguesa ou pelo Vasco, e tem certo prazer em ver o time caindo pelas tabelas. E todo prazer é triste para o triste. O triste se apaixona por estranhos no ônibus, mas não tem coragem de falar nada, como teria coragem? O triste vai para o trabalho e passa o dia tectlecando na máquina de escrever, como na Modinha do Murilo Mendes. (O triste trabalha sempre em máquina de escrever – mesmo que seja analista de sistemas, astronauta, domador de leões ou prático de farmácia). Tecteleca, mas sua cabeça não está nos documentos e nos carimbos à frente. O triste vive em um mundo só seu, sua cabeça é uma cidadela murada e escondida nos confins do mundo, casbá indevassável.

O triste gosta de crianças quando estão naquela fase em que tudo o que dizem é poesia. Depois, arrumam uma personalidade e acabou-se a graça, ficam engessados naquilo e nunca mais saem: viram seres humanos profissionais, com RG, certidões de imposto de renda e casual fridays. O triste tem pena dos seres humanos profissionais, porque perderam a capacidade de inventar mundos novos.

Nos finais de semana, o triste caminha de paletó (branco ou branco-surrado) no calçadão de Copacabana, entre sungas e mamilos e havaianas. Mas o uniforme oficial do triste é o pijama listrado (azul e branco). O triste até hoje pensa em Cartago, destruída sem dó pelos romanos. O triste sempre repara nas fotos da Ucrânia, sempre há campos de girassóis onde há aviões caídos e tanques de guerra. O triste sabe que a guerra e o desastre é que são pano de fundo para os girassóis, e não o contrário. E há tantos burricos brancos nas fotos de Gaza arruinada, uns cordeirinhos também... O triste acha bonita a nova moda dos homens barbudos: de repente deram de colocar flores nas barbas. Não passa de moda, o triste sabe disso, mas o que é que não passa? Tudo passa.

O triste é sempre um poeta em potencial. E, quando se faz cosmicamente, amazonicamente alegre como Whitman, como Campilho, aí é que é ótimo.

Viva o triste, abaixo a tristeza!      


O soco final
Rafael Sperling
  • Victor Heringer

    Victor Heringer (Rio de Janeiro, 1988) é escritor, autor de Glória (7Letras, 2012, Prêmio Jabuti), O escritor Victor Heringer (7Letras, 2015), Lígia (e-galáxia, 2014), entre outros. Colabora na revista Pessoa desde 2013.

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