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Não recordo o frio
Foto: Do acervo da autora
15 de Fevereiro de 2017 Fernanda Mira Barros

Parte I:

Mosteiro zen, Colorado, fim de 2016

Não recordo o frio, recordo a neve, que é, por definição, bem mais que fria. Fria é, ou está, uma alma desgraçada. A neve? A neve é gelada. Como certos olhares gélidos, ela queima. E brilha contra um céu de tal intensidade de azul que só nos ares rarefeitos das mais esplendorosas cordilheiras se alcança. Tão azul que suscita frases pedestres como esta, a anterior, as seguintes.

Um azul tão seguro de si que nos convence da possibilidade real de tocá-lo, como à tinta duma tela favorita exposta a um braço de distância de nós, só que mais vivo, menos moderno. Agarrá-lo, celestial turquesa nas mãos dos índios do Novo México, e trincá-lo, qual moeda de ouro de outro tempo, e dos filmes filmados por aqui nesse outro tempo, trincada para provar a sua verdade. Reconhecemo-lo sem nunca o termos visto num esplendor assim, tal rei passeando pela primeira vez junto do povo que para ele se verga. Até a inconsequente sabedoria da minha meia idade prenuncia que a sua azul beleza deixará cicatriz se não houver cautela. Ou não fosse ele de natureza cortante, brandindo aquele sibilante Z, que depois se atraca ao U e uiva baixinho, até se deixarem elevar, enlaçados, pelo braço elegante do L que os bailarina. E desapaixonamo-nos. É só o azul de um céu.

Detive-me a observá-lo, enamorei-me, como acima se vê. Para o enfrentar mais vezes, agasalhei-me e certo é que certos dias houve em que discutimos. Ele testemunhou-me a mim, eu baixei os olhos. Tal espanto me tomou ali e estranhamente - porque venho de um lugar no sul de um país do sul onde se alcançam magníficos, também, azuis celestes -, tal espanto me tomou que nem sei concluir sobre ele alguma coisa.

Era talvez tê-lo roubado para o estudar melhor, dele guardar um pedaço no bolso almofadado contra o frio, enrolado num lenço de cambraia para o disfarçar de coisa menor - de, por exemplo, dentadura. Mas já ninguém usa dentaduras; ninguém, neste lado do mundo. Nem ninguém me acreditaria quando eu confidenciasse, porque é certo que eu confidenciaria, ter no bolso um bocado do céu do Colorado. Mais verossímil trazer comigo um rasgão do sudário de Cristo.

Ali perto, Aspen, das mais chiques estâncias de ski, é, para os habitantes deste meu lugar recente, mal frequentada. Cenho franzido, interrogativa: “Aspen?” E um encolher de ombros de impaciência. Percebo-os, sem nunca lá ter pisado. Alguns trabalham lá e é para aqui que fogem para recuperar de lá. Porque aqui a coisa é outra. Aqui, vestimos graciosamente roupas sem graça e andamos descalços pela casa aquecida. Andamos descalços até fora de casa: no templo, por exemplo.

Elevado uns cinco degraus do solo, aquele último degrau, o mais alto, é já considerado “dentro”, pelo que é aí que nos descalçamos. Claro que estamos no exterior e está muito frio, um frio de fim de ano. É noite cerrada ou é madrugada, é uma das horas a que frequentamos o templo. Claro que estamos no exterior e descalçamo-nos. Mais logo havemos de meditar caminhando neste exterior que é dentro de casa.  

Se sentimos o frio? Agasalhamo-nos contra ele, pois que o conhecemos. Aquele azul da tarde não nos falou de outra coisa e ainda ontem o frio, em pessoa, apareceu como prometera e apresentou-se: Dezessete Negativos. Não repelimos quem nos visita aqui.

Comemos maravilhosamente, repousamos, cozinhamos, lavamos, varremos, arrumamos, tomamos muito chá, pensamos, conversamos, ouvimo-nos. Dançamos, há que dizer, e como. Num mosteiro faz-se muita coisa. Sexo, aposto, por exemplo, e porque não? Pois que do presente se trata aqui, filosoficamente e com bastante exatidão. Não somos divindades.

Gravado, Trovesi toca maravilhosamente na burguesa sala lisboeta forrada de livros por organizar onde me recordo daquele lugar, que foi recente. O verbo recordar parece pôr maior distância no tempo. Mas há passados e há passados, e cada passado tem os seus próprios tempos, independentes do tempo real. Foi há pouco tempo, não há dois meses ainda.  

Choveu a tarde toda hoje, isso alegrou a rural que sou. Uma gata velha que, para infelicidade do meu pneumologista e da minha letal asma mas para minha enorme graça, nunca mais morre, aquece-me os pés. Quando acordar, essa anciã espreguiçar-se-á, ficarei a vê-la. Corre muito ainda, brinca todos os dias antes de descansar, afia as garras, desafia-me, esconde-se, deixa o rabo de fora, depois morde, lambe, recalcitra mais ainda e mia, sabe de cor o que há a saber sobre a alegria. No centro de Lisboa, um ridículo friozinho de Fevereiro gela-nos muito mais do que o frio imponente das montanhas do Colorado.

Havia que deixar o ano passar, havia que lhe dizer Vai-te embora, tu que me fizeste tanto mal. Razão para me encontrar ali.

Sofro da pena de que você não tenha podido ser ali, comigo, a pessoa que você foi comigo sempre.

(a suivre)


Impressões do Peru
Victor Heringer
  • Fernanda Mira Barros

    Fernanda Mira Barros (Lisboa,1967) cursou língua e literatura inglesa e alemã na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e trabalhou como editora na Livros Cotovia, onde, em vinte anos, publicou mais de mil títulos. É amante de livros, animais e outros seres belos. Ex-tímida, seu lema é: Nunca se sabe.

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