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Onde o mar habita
Foto: Imagem do filme "Eu, Daniel Blake", de Ken Loach
08 de Fevereiro de 2017 Luciana Araujo Marques

Ler é cruzar mares onde correm diferentes correntes. Não adianta ler um livro de cada vez. Um livro já é em si o arrebentar de outros. Não adianta sequer focar apenas em livros, porque a leitura atravessa tudo o mais a que se atenta, como se tudo pudesse pender de suas linhas. Singrar O porto, de Leda Cartum, pode sangrar feridas antigas no convés do navio na viagem que encerra Perto do coração selvagem, ao se afastar daquela “zona onde as coisas têm forma fixa e arestas” e cada vez mais se afunda “na região líquida”, onde o corpo é “memória fresca, onde se moldam como pela primeira vez as sensações”, nas palavras de Clarice; posso involuntariamente, aportar nas tintas de Le port de Carquethuit, de Elstir, o pintor de Em busca do tempo perdido; fixar-me no branco perturbador em Moby Dick (mas este deixarei para comentar em outra ocasião) e até nos cardumes-móbiles esculpidos pelo carpinteiro Daniel Blake, no filme dirigido pelo inglês Ken Loach.

Ler assinala também outras direções, em sentidos não navegados: o desejo de ler o que ainda não li, por exemplo, a obra de Pascal Quignard, o autor das palavras que abrem o livro de Leda: “Ce qui reste de ce qui passe este comme l’autre monde du monde”. (E o que é uma epígrafe se não assinar a escritura de um terreno, autenticando-o como próprio, na partilha com o leitor?) O poeta Marcos Siscar assim traduz a citação: “o que resta daquilo que passa é como o outro mundo do mundo”.

Como sugere a epígrafe de Quignard, O porto trata do que restou depois de passado, e é exatamente por isso que em suas páginas tanto se repete que se esqueceu. Estamos nos domínios da lembrança, afinal. Recorto frases, soltando-as de seu contexto, entre aspas, uma vez que sempre se unem: “É preciso contar uma história”, “mas eu não me lembro”, “não sei lembrar”, mas também “não consigo me esquecer”, porque “pouca coisa me faz esquecer” e “aquilo que procuramos nos encontra”. E esse “nós” nos convoca, nós, seus leitores, a empreender também uma busca para fixar o que pode parecer solto na trama – ou seria para deixar desatar amarras muito tensas, quase imóveis, quando se tenta fixar em descrições certos momentos, fazendo delas os fios soltos que de fato são?

No porto, o que é esquecido “espera subaquático”. Está consequentemente submerso por distintas camadas d’água, sob os efeitos deste meio – líquido. Remeto mais uma vez ao romance de estreia de Clarice, sem qualquer intenção de identificar filiações, não é o caso, mas apenas para apontar esse lugar convergente nas obras, um onde “as palavras são seixos rolando no rio”, um onde o tempo vivido acumula-se e a sensação flutuante era “como a lembrança de uma casa em que se morou. Não da casa propriamente, mas da posição da casa dentro de si”. Onde o mar habita.

O porto conta de um lugar e de como ele se desloca na interioridade de quem narra, de quem arquiteta sua poesia nesta prosa de ruínas. Conta onde habita o mar, num sussurro, como se segredasse uma localização, desvendasse um esconderijo. Só que “Não existe um segredo e não vamos decifrar” dados e endereços em guia nenhum. Talvez, quem sabe, em uma noite de insônia, nas pontas dos dedos, ao tocar um onde as “rugas do lençol” se convertem em “fronteiras dos países”, na bela imagem pintada por Leda.

Caminha-se muito a céu aberto neste O porto, de norte a sul de um país (a Itália, ao mesmo tempo é dispensável nomear), mas nele vasculhamos cantos insondados desta casa que é o retorno, essa companhia que não desgruda aonde quer que se vá. O mar está em toda parte. Nas mochilas (antes pesadas e agora esvaziadas dos dias, o que nem sempre é sinônimo de leveza, mas de um vazio que ora se procura preencher ora adensar). Nas paredes. Nas sacadas. Nas gavetas. No meio-fio. Sob o tapete está o mar, revolto e varrido. Nas ruas. Nos telhados. (A propósito, tenho vontade de grifar cada substantivo que remete a lugar no livro, mas só assim que eu comprar canetas marca-texto de diferentes tons de azul). “São lugares grandes [...] que visitamos sozinhos [...] que nos frequentam nas noites”. (Para as referências às noites insones, quase uma catedral em vigília, eu deixaria as cores mais escuras). 

Por vezes, está tão longe esse mar, lá fora, que é preciso adivinhar o seu barulho “pelo dos carros que passam constantemente na avenida debaixo de casa”, numa cidade não litorânea. Essa casa ergue-se em “fortaleza de possiblidades”, “edifício de hipóteses”, escadarias com degraus e degraus a afastarem-se do chão. Há também o céu. Todo um mundo habita o interior de um avião de quem cruza pelo alto os continentes, mas sem deixar de vislumbrar os seres que moram no fundo dos oceanos, abissais.

Parece que no livro de Leda tudo começa com o corpo todo exalando a oceano (salgado) e termina... ou melhor, não termina, porque o mar sabe de cor todos os caminhos da narina para recomeçar. O porto surge, então, como nascente ao longo de toda a narrativa. Constatar a presença de tantas nascentes é também desdizer o começo para além de uma sucessão numerada em ordem crescente, a deduzir um ponto inicial a partir do qual se rememora ou se conta o que se rememorou. Essa noção não convém aos vaivéns horizontais e verticais do tear operado pela escritora. Nas memórias, espaços e temporalidades se confundem, se fundem e Leda bem o sabe, as manuseia no presente que é sua escrita, onde se amontoam os sentidos de guardar e aguardar, de caber e não ter cabimento em um lugar único...

“Nada tem lugar fora do tempo: a não ser a lembrança, talvez só a lembrança.” A lembrança tem lugar no livro, poderia se afirmar, entretanto, não é em um lugar específico que está marcado o encontro com o passado, não é no porto localizável no mapa, mas, sim, em um outro, o que titula a travessia. O encontro se dará num tempo, naquilo que será dito, naquilo que quedará calado. Será daqui a dez anos: “Não direi quase nada, praticamente nada, só direi isto: que se passaram dez anos. Que se passaram dez anos e eu precisava cumprir com nosso compromisso: eu precisava te lembrar que se passaram dez anos”.

“Este o porto foi feito durante quatro anos, num aprendizado da espera e da paciência como formas de criação”, se lê em “Sobre a autora”, já aparentemente fora da narrativa. O registro desse tempo é importante para dizer sobre a presença da autoria no que ali se lê. Junto à espera, como definição das lições de sua composição, eu incluiria o que retorna do esquecido. Junto à paciência, repetição, repetição, repetição. Recurso que a romancista maneja com dicção poética. Tudo aquilo que parece o mesmo volta modificado. “Nós precisamos repetir porque tudo o que dizemos é uma isca, e jogamos a isca, e pescamos o peixe, e comemos o peixe. Nos cantos da boca, na dobra dos braços, no vão entre os dedos: onde está tudo o que dizemos?”. Essas modulações compõem uma unidade, ainda que se percorra diferentes paisagens estrangeiras, de um canto a outro do lar do dia a dia, para onde se carrega tudo o que foi.  

O que resta na intimidade entre quatro paredes e que se expande luminoso, por exemplo, em uma investigação das origens da luz ou como ela reflete as coisas ou como essas coisas são apagadas pelo escuro, no livro de Leda, me leva mais uma vez ao quarto onde Joana, a personagem de Clarice, observa na parede o quadro em que um navio flutua torto: “as coisas do quarto espichavam-se luminosas, o fim de uma dando a mão ao começo da outra” [...] “ela já sabia que tudo era um”.

Tudo “era um” justamente no quadro fictício de Elstir, pintado por Proust em uma longa descrição que vale a pena ser contemplada em À sombra das raparigas em flor (mas que não convém reproduzir aqui), no qual o urbano e o marinho fazem um a vez do outro nas figurações, em um belo jogo de ilusão óptica, que forma nossa visão inicial, suprimindo qualquer demarcação do que é um do que é o outro. A obra de Elstir é composta da natureza como ela é, poeticamente, uma indistinção entre mar e céu, mar e sol, mar e montanhas, branco, névoa e espuma. “O esforço que fazia Elstir por despojar-se, em presença da realidade, de todas as noções da sua inteligência era tanto mais admirável, porque esse homem – que antes de pintar se tornava ignorante, esquecia-se de tudo por probidade [...] – possuía uma inteligência excepcionalmente cultivada” (grifo meu).

E, assim, as marinhas de Elstir, seu porto a pinceladas, me faz ler O porto com outros olhos, com os olhos de quem aprecia, para além da narrativa, que é o todo, os pequenos quadros que são ali expostos, o que a própria disposição do texto nas páginas evidencia. Séries inteiras estrategicamente espalhadas em diferentes corredores e salas. Opa! Isto que está aqui me diz do que vi lá. Diálogos assim atravessam o livro, muito mais do que discursos diretos. Diálogos assim nos incluem como leitores. Observadores de algo que se dá em termos visuais, sensoriais.

Há ainda um outro quadro (paratextual) a ser considerado quando se lê O porto: na capa, assinada por Marcos Cartum, vemos o cargueiro Belle Isle, ilustração de um cartão-postal, souvenir da viagem de David Kartun, em 1928. Penso nas documentações todas de uma imigração, na travessia de um nome forçado aos registros de cartório em outra língua. O pouco cuidado com o que se nomeia, isto é, o avesso de O porto, que é todo cuidado. Penso nos transatlânticos que trouxeram nossos ancestrais, todos, na maioria vinda em porões. Penso na perda dos nomes para além das trocas das letras e o que foi apagado, dado como esquecido, que é tão distinto do esquecer aqui em foco como ação do lembrar.

Ao pensar no papel morto que desempenha a burocracia, a nos matar, porque a serviço de interesses nada afeitos à vida, me ocorre que para se chegar à Newcastle, onde se passa Eu, Daniel Blake (direção de Ken Loach e roteiro de Paul Laverty), na insular Inglaterra, também é preciso atravessar o mar e suas metáforas. É preciso reconhecer a presença de um porto quando se sai de repartições públicas. Para se enxergar a face humana diante da desfiguração empreendida pela máquina de formulários sobre quem precisa recorrer aos serviços sociais, caso de Daniel, um viúvo de 59 anos que sofreu um ataque cardíaco e não pode voltar ao trabalho por recomendação médica, é preciso lembrar que ele não é um mero número em páginas e páginas, ou telas e telas em nuvens sem céu, onde se assinala sim ou não, e o filme o faz com maestria, sobrepondo com uma evocação humana a voz automática do call center e sua musiquinha irritante.

Daniel Blake é um Eu que guarda consigo o saber de toda uma vida dedicada à construção civil. Não é à toa que ele é um construtor de casas. Um Eu que cuidou de sua mulher até a morte, mas que a mantém viva em seu espaço como construção singular, o quanto possível, enquanto é possível manter-se ele próprio vivo com os recursos de fome de que dispõe quando tudo é caro demais. Ele conta que ela, sua mulher, era como o próprio oceano, ora calma ora agitada. Constatava: “todos precisam de uma brisa nas costas”. Um Eu que não domina teclas, mas escreve com seu lápis de carpinteiro o que precisa colocar para fora e não foi ainda automatizado. Que constrói uma estante com um peixe gravado no alto, a fim de guardar os livros de Katie, a mãe faminta dos pequenos Daisy e Dylan, que quer voltar a estudar, quem sabe, um dia... Que questiona, afinal, o que mata mais cocos ou tubarões? (Não consigo não lembrar da personagem de Sonia Braga nadando com tubarões em Aquarius).

Sem conseguir nem a aposentadoria por invalidez nem o subsídio para desempregados, Daniel vende praticamente todos os seus objetos, mas preserva a caixa com suas antigas ferramentas. Sobretudo, ele recusa a oferta feita pelo móbile de peixes que ele mesmo talhou em madeira, similar ao que pendurou como presente no quarto da pequena Daisy. Sustentado por fios, o cardume oscila como se nadasse. Pequenas contas azuis na peça brilham quando atravessadas pelo sol da cidade cinzenta. A casa de Daniel Blake é o próprio oceano que lhe habita, seu único seguro garantido, seu porto, enquanto possível.

Enquanto observo esses quadros marinhos ali sentada no escuro do cinema, quase atada em falta de ação, recordo esburacado este trecho de O porto, de Leda Cartum, que aqui retomo preenchido depois de retomá-lo no livro para poder citar: “É um esforço das coisas, que pendem, que tendem, que lutam sozinhas. Tudo inclina, tudo é longo, tudo volta constantemente. É um fio invisível que puxa, que chama e que ninguém  atende. E as coisas imóveis no mesmo lugar, as coisas paradas o tempo todo disputam cabo de guerra”.


A peça intocada
Revista Pessoa
  • Luciana Araujo Marques

    Luciana Araujo Marques é mestre em Teoria Literária (USP) e doutoranda em Teoria e História Literária (Unicamp). É jornalista e atua no mercado editorial. Está entre os autores selecionados pelo programa Rumos Literatura, do Itaú Cultural, que teve como objetivo apresentar novos nomes da produção crítica brasileira com foco na produção literária contemporânea do Brasil, tendo como resultado a publicação do livro de ensaios "Protocolos Críticos" (2009).

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