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Eu, Paterson e os cadernos
Foto: Cena do filme Paterson, de Jim Jamursch
07 de Fevereiro de 2017 Ana Kiffer

Geopolítica dos afetos

écoutez, le riz, voilà comment il faut le faire,

une fois pour toute retenez ce qu’on vous dit. M. Duras


De fato não restava muito mais. Uma ou outra pista de onde colocávamos as nossas barracas. No meio das árvores. Alguns buracos ainda abertos. O seu olhar. Sempre um tanto parado. Como se todas as coisas fossem vistas pela primeira vez. Exigindo demorar-se nelas.

As pessoas andam rindo de mim. Sobretudo nos meios muito ilustrados. Isso porque ando dizendo francamente. Que as ideias. Esse mundo aonde vivi. Manejando conceitos. O mundo deles. Sim. Ando dizendo por aí que já nenhum deles interessa-me. Se não for para nos ajudar a viver melhor. A montar e a desmontar barracas.

Ainda espanto-me com um ou outro riso. O pensamento dedicou-se tantos séculos a mudar o mundo. Modestamente quero apenas o direito de exercer uma crítica que se volte para as pequenas mudanças subjetivas. Como talvez tenha sido o encontro entre Paterson e o poeta de Osaka. Ou talvez antes com William Carlos William. Ou entre eu e Paterson. Ou ainda antes de tudo isso o encontro com os nossos próprios cadernos.

Decidi dizer por aí que trabalhar com os cadernos exige uma crítica que dá as costas à segregação entre o exercício do pensamento e o músculo afetivo. Sobretudo que se vira contrária a tudo o que se coloca exclusivamente sobre algo. Uma espécie de rebelião dos ‘objetos’ aconteceu na minha pequena usina pensante. A máquina desregulou. E tudo passou a falar. O mais mudo do mundo cutucando-me com o seu silêncio impetuoso. Aha.

Esse desejo simples que provoca risos. A constatação de que já não posso mais exercer o ‘poder’ da crítica sem que esse empuxo um tanto prático e patético faça-me querer olhar os contornos intensivos da palavra. Seu possível choque sobre o corpo de quem lê. Sua relação intrínseca com os alimentos. Com os modos de fazer. Com a cozinha. As mulheres ali dentro. Com as separações entre o mundo da fome e esse da palavra. Com os lugares que insistimos em não ver. Com as portas que fechamos. Sistematicamente.

Ainda um pouco além: esse compromisso silencioso que se foi ocupando de mim. Com a vontade de liberar vida. De que consigamos mudar não apenas os hábitos. Mas efetivamente o modo como nos relacionamos com o outro. Com os outros. Com esse “tout monde”, como dizia Édouard Glissant. 

Esse compromisso desejante. Indicando a vontade de que viver junto seja viver melhor. Viver mais. Estancar esse fluxo de morte. Que escoa sem parar.

A isso venho chamando. A partir da leitura de alguns que me transformaram realmente, venho chamando, com cara de quem quer convidar, de crítica clínica da cultura.

Uma crítica em prol da clínica não se faz com boas intenções. Chega a idade madura para infelizmente nos dizer – na esteira de Achille Mbembe - que hoje “a política da inimizade”[2] é mais importante de ser enfrentada, e que ela traça destinos geopolíticos assim como subjetivos, desde os corredores do planalto a esses da vida acadêmica. E que sob esse aspecto o apelo um tanto melancólico em prol da “amizade”, como desejou Maurice Blanchot soa, nesse agora, inoperante. Efetivamente não se contesta mais contra a guerra com a bandeira da paz. Mas também insisto que não é possível diante dessa constatação ver apenas o terrível da perda de um sonho. Ou o incremento crescente dos braços do biopoder.

O agora exige práticas que proporcionem novos modos de produção de sentido. Estamos em busca da construção de novos signos. Não exclusivamente de novas bandeiras. Sentido e signo como essa usina primordial a ser gerada. Que escape justamente à dicotomia imposta pelo terror: morte ou vida, vermelho ou verde e amarelo[3], esquerda ou direita. Não sairemos dessa sem refazimentos mais agudos. Que exigem eles mesmos a revisão fina das nossas trajetórias. Sem atos punitivos ou melancólicos. Mas com reconhecimento das falhas. E abertura para o combate às forças coercitivas que vem de todos os lados. Estou, na esteira do que entendo ser um trabalho crítico clínico, defendendo que isso já não pode se passar exclusivamente no plano ideológico e conceitual (exercício crítico e/ou político) tampouco no plano individual aonde se alojaram, na cultura ocidental majoritária, as práticas clínicas (psicoterapias, psicanálise) e artísticas.

A busca por novas linguagens exige mesmo novos modos de comportamento e de alheamento entre o que entendemos ser as práticas coletivas e as práticas individuais. Novos processos de subjetivação. Que envolvem novos modos de politização. Tudo isso aqui e ali acontece de forma minoritária. Mesmo que ainda muito pouco no mundo acadêmico. Aonde ali a crítica é entendida sobretudo como exercício intelectivo. E a política, na maior parte das vezes, encerrada nos gabinetes, ou ideologizada nos diretórios acadêmicos. Exatamente contra esse enredo desejaram agir algumas ações, novas propostas políticas incipientes e também algumas ocupações.

Obviamente ninguém aqui é suficientemente ingênuo para se crer inventando rodas. Estamos observando e sublinhando aqui e ali o desejo de transposição e de reconfiguração dos modos de comportamento dicotômicos. Sua suspensão num para além do discurso crítico aporético. Estamos querendo sublinhar os momentos e os modos que chegam a criar diferentes práticas. Que transforme algo até ali cristalizado.

Coletivos que passearam entre a arte, a ocupação e a intervenção político cultural fizeram isso. Alguma prática clínico-artística. Um conjunto imenso de pesquisas que certamente desconheço. Nosso desejo de olhar para as comunidades indígenas. Modos de convívio e luta do povo de santo.

Certamente os modos e proposições de diversas questões minoritárias encontram também elas assento sobre a consolidação de novas práticas de vida comum e não apenas sobre a reivindicação de direito ou de conceito.

Mas o que estou tentando rabiscar é mesmo muito menor. Já ligado ele mesmo ao desejo de compartilhar fracassos e falhas. Ao desejo de compartilhar a escrita. E não apenas o texto. Compartilhar o desejo mesmo de escrita. Que aliás se faz num espaço político e afetivo comum. Ou como pensam que se advém escritor?

O desejo de construir o como se faz o arroz. E não apenas dividir ‘humanamente’ envolta num cenário ‘desumano’ um pouquinho do nosso arroz. Quanta falácia ainda.

Não pensem que se pretende a reprodução de uma receita. Num caderno não há receitas. E no caderno de receitas não está o prato.

Desmontar o pronto. Trata-se ainda disso aqui. E também nesse esboço singelo um tanto desse cruzar de campos distintos. Tudo já muito feito. O pouco ainda realizado diz respeito apenas a esse desenhar de um pequeno conjunto de práticas a partir desse objeto quotidiano, e ao mesmo tempo evanescente, que é o caderno.

A escrita de cadernos, o que essa pesquisa vem exigindo que eu pense, dentro e fora da universidade, abre alguns gestos que visam incidir sobre essa construção de uma crítica clínica da e na cultura. Vou falar aqui apenas um pouquinho de um deles.

Esse que diz respeito ao convite a abrir os nossos cadernos e a buscar enfrenta-los como essa espécie de arquivo lacunar e primordial. Potência de troca e de compartilhamento de experiências ainda falhas. Aliás tudo o que se passa nos cadernos é habitado por essa vaga lacunar, falha, mais cheia de vazios do que de plenos. Sensação de vulnerabilidade ou pequenez mais próxima aos desfazimentos de sentidos. A um certo desabamento de mundos. Aquele aparente vazio rotineiro de Paterson que dá ao mesmo tempo lugar ao pulular de  todas as formas. uma parecência com o poder vir a ser.

Por isso, normalmente, os cadernos vem figurando como ‘pré-obras’ (lugar do surgimento dos projetos) em diferentes domínios, tais como a arquitetura, a antropologia, as artes ou a literatura. Ou, como quero ver: rasura, indeterminação, desejo e afecção que recolocam, reconfiguram, abrem, e partilham os processos de formação das próprias formas, elas mesmas abertas e instáveis, do mundo contemporâneo.

No ponto onde também armam-se as máquinas de estrangulamento de produção de sentido. Porque com os cadernos vamos um pouco a esse universo do infra-sentido. Lacunar e larvar ao mesmo tempo.

Por isso também a questão clínica – nesses tempos no qual emergem lideres midiáticos - que os cadernos nos coloca diz respeito ao desfazimento de nossas imagens de sucesso. Chamando a um convívio mais consistente com as nossas falhas e fracassos. Que nos permita alianças menos onipotentes. Modelos menos apolíneos. E nem por isso destinados ao furor dionisíaco. Sempre que buscamos desmontar as formas bem delimitadas. Os contornos todos bem definidos. Sempre nesse momento insurgem as policias do pensamento. Querendo nos alojar no mundo do furor e da intensidade. Não meus caros. A sabedoria aporta que viver é para todos - com exceção dos natimortos - impreciso. Perigoso.

O recado que escuto dos cadernos diz sobretudo daquilo que pareceu ser a mudança. Mas que de fato, apesar de ter atingido os nossos hábitos, pouco transformou das nossas vidas. Expectativas e visão dos mundos.

Mexer nos nossos próprios arquivos. Compartilhar um conjunto heterogêneo e falho de experiências é um convite. Não é um convite em primeira mão ao fazer artístico. E sim à tentativa de fazermos juntos essa espécie de troca de papéis. Que deseja assumir aqui o seu sentido literal e simbólico.






[1] Esse texto parte do encontro entre a pesquisa que desenvolvo há dois anos sobre a ‘escrita’ de cadernos impactada pelo ultimo filme de Jim Jarmusch “Paterson” que acabo de assistir em Paris. Nesse filme o caderno insurge como uma espécie de personagem conceitual, muito mais do que como um artefato. No entanto, aviso ao caro leitor, isso aqui não é um texto critico sobre o filme. Mesmo que tanto o caderno como um ou outro personagem do filme insurjam no texto como intercessores capazes de alterar ou disparar o modo de olhar que a pesquisa vem tentando abordar e construir.

[2] titulo do seu ultimo livro. Editions de la Decouverte, 2016.

[3] esse exemplo retiro da conferência de Tatiana Roque no Colóquio “Des centres partout la phéripherie nulle part” (org. Fernando Santoro no Collége Internationale de Philosophie, Paris, 2017), que mostrou, através do conceito de diagrama, como fomos saindo de uma multiplicidade de questões, cores, frases e bandeiras nas manifestações de 2013 no Brasil para essa empobrecida e coercitiva polarização que eclodiu em 2016 entre o verde-amarelo e o vermelho nas ruas de todo o país.


Onde o mar habita
Luciana Araujo Marques
  • Ana Kiffer

    Professora Associada da Pós-Graduação em Literatura, Cultura e Contemporaneidade da PUC-Rio, escritora, curadora da Exposição ‘Cadernos do Corpo’ (CCJF, 2016), uma das fundadoras da Revista DR, pesquisadora da obra do francês Antonin Artaud. Autora dos livros A punhalada [poesia], (7Letras, 2016, coleção Megamini), Antonin Artaud (EDUERJ, 2016), e das coletâneas Sobre o Corpo (7Letras, 2016), Expansões Contemporâneas – literatura e outras formas (UFMG, 2014), Experiência e Arte Contemporânea (Ed. Circuito, 2013), entre outros artigos e ensaios.

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