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O muro
Foto: Berlim, 1989
06 de Fevereiro de 2017 Victor Heringer

Esta era a geração que diluiria as fronteiras nacionais. Em vez disso, estão a erguer muros para lhes dar concretude.

O muro é a burrice tornada estrutura visível. Se o teste da verdadeira inteligência é manter duas ideias opostas na cabeça ao mesmo tempo, como disse Fitzgerald (ou em bom brasileiro: ver os dois lados da coisa), a estupidez é de natureza mural. O muro só tem vista para um lado, sem janelas e, em geral, quem fica em cima está com o fuzil apontado para o lado de lá. A função do muro é produzir lados-de-lá.

O muro é cafona. É o bronzeado laranja da arquitetura, a sobrancelha acaju das fronteiras, que por si só já não são lá muito elegantes. A Muralha de Adriano e a Muralha da China são cafonas. Sua antiguidade não lhes concede vetustez. 

O muro é um símbolo, mais do que qualquer outra coisa, pois já se inventaram aviões, escadas, trampolins, cordas e sapatilhas de escalada. Como símbolo, é pouco imaginativo. Já existem muralhas figuradas, e muito mais eficientes, impedindo a circulação livre dos seres humanos pelo planeta. O recurso desesperado ao clichê em sua variante mais literal sempre indica o fim de algo. Pode ser o fim de um império, da inteligência ou mesmo só o da honradez.

O muro é a chupeta do adulto infantilizado. Apazigua, mas não alimenta. Depois de um tempo, começa a deformar os dentes, despertando uma vontade incontrolável de morder. O adulto tem fome, mas o muro não o sacia. O adulto faminto e raivoso é perfeito para ocupar trincheiras.

A trincheira é o sonho do muro, assim como o muro é o sonho da trincheira.


Brincadeira
Ana Vidal
  • Victor Heringer

    Victor Heringer (Rio de Janeiro, 1988) é escritor, autor de Glória (7Letras, 2012, Prêmio Jabuti), O escritor Victor Heringer (7Letras, 2015), Lígia (e-galáxia, 2014), entre outros. Colabora na revista Pessoa desde 2013.

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