Madame Pommery

Único livro de Hilário Tácito faz deliciosa ironia da São Paulo pré-modernista

Escrito por Eloésio Paulo em 11 de outubro de 2013

OPÇÔES

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Com “engenho arguto e vastíssima sabedoria”, uma prostituta espanhola revolucionou a “vida airada” de São Paulo no início do século XX. Em resumo, esse é o argumento do divertido romance de Hilário Tácito, pseudônimo que, sendo uma irônica contradição em termos, anuncia o tom debochado com que se narra a vida de Madame Pommery. E o deboche resulta, pela excelência do estilo, em um dos livros mais bem escritos da literatura brasileira.

Madame Pommery (1920) foi publicado pela editora de Monteiro Lobato. O autor, José Maria de Toledo Malta, foi um engenheiro nascido em Araraquara. Responsável pelos cálculos estruturais do famoso edifício Martinelli, símbolo da urbanização acelerada de São Paulo no início do século XX, também traduziu boa parte dos Ensaios de Montaigne, autor citado no original, assim como o Quixote e alguns poetas latinos. Mas há também a homenagem a Machado de Assis, cujo Brás Cubas parece ter sido o grande modelo de Hilário Tácito. E este nada fica devendo ao mestre em matéria de travestir de elegância o cinismo.

A protagonista chegara a uma São Paulo cujas atividades noturnas eram ainda muito subdesenvolvidas. Com invulgar senso de observação e um oportunismo que não hesita em transpor o limite da desonestidade, Madame Pommery ascende rapidamente da condição de prostituta pouco afreguesada – pois era gorda e já se encaminhava para os 40 anos – ao status de proprietária de uma casa de mulheres onde as vulgares e baratas cervejadas haviam dado lugar ao champanhe obrigatório e caríssimo. O “apostolado” da cafetina, iniciado com o modesto capital eroticamente extorquido a um desavisado “coronel”, e a princípio seguido por apenas seis “alunas”, logo obtém a conversão dos endinheirados paulistanos a um campeonato no qual a consideração se mede pela disponibilidade à gastança.

Sob o tom falsamente cerimonioso da narração, à qual não faltam as digressões nem os apartes dirigidos ao “leitor amigo”, Hilário Tácito desenha um painel caricatural da cidade enriquecida pelo café e convicta de que se civilizava por meio da imitação de costumes franceses. O Paradis Retrouvé, lupanar de Pommery, não se restringe à “assistência profissional” custando um terço do salário ao papa-hóstias Justiniano Sacramento: após modernizar a “prostituição indígena”, resulta, na opinião do sardônico narrador, em efeitos positivos sobre a própria instituição do casamento. Se Madame Pommery tem um defeito, ele consiste na aceleração do tempo narrativo pouco antes do desfecho, por sinal admitida pelo próprio narrador.


Eloésio Paulo

Eloésio Paulo

Eloésio Paulo nasceu em Areado, Minas Gerais. Doutorou-se em Letras pela Unicamp em 2004. Publicou Os 10 pecados de Paulo Coelho (2007) e Teatro às escuras (1997), além dos livros de poemas Primeiras palavras do mamute degelado (1990), Cogumelos do mais ou menos (2005), Inferno de bolso etc. (2007),  Jornal para eremitas (2012) e Homo hereticus (2013). Foi resenhista de O Estado de São PauloJornal da Tarde e O Globo. Para o site da revista Pessoa, Eloésio resenha romances brasileiros dos séculos XIX e XX.


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