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Casa

Conto de Rafael Gallo

Escrito por Rafael Gallo em 2 de setembro de 2013

OPÇÔES

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I

 

Eu não podia acreditar no que meus olhos viam. Minha casa desfeita, desentranhada pedaço a pedaço pelos guardas, começando por mim. Era cada vez mais clara a mensagem contida no estrado da cama encostado de pé ao muro, na geladeira a esquentar muda sob o sol e nos armários bambos sobre a calçada: eu perdera meu lar.

Ainda reverberava em minha lembrança o estrondo do arrombamento da porta pelos policiais. O revide por eu tê-la batido na cara do oficial de justiça. Quando os vi dentro da sala, percebi minha derrota: de nada adiantara me trancar, ter me livrado de todas as notas de despejo. Saí sem maior resistência, em silêncio. Meu coração frio como o de um homem morto. Um caminhão encostou, pronto a levar meus pertences; eu deveria acompanhá-los, mas preferi caminhar, espairecer. Não conseguia pensar em nada além da minha casa – o lugar que me sentia seguro. Passei por um grupo de moradores de rua, viciados deploráveis, e me pareceu ser essa a perspectiva de uma vida sem meu abrigo.

O desespero tomou conta de mim. Apressei o passo, os olhos cheios do calor adstringente das lágrimas. Quando parei cansado, coloquei as mãos nos bolsos da calça; em um deles, tateei as chaves de casa. Foi como se alcançasse minha espada na bainha. Aquele era meu lugar, eu tinha de lutar por ele.

Esperei a noite cair, pensando ser seguro voltar a essa hora. Estava certo: os policiais já haviam se retirado, os vizinhos curiosos já estavam dentro de suas próprias salas de jantar e a rua solitária. Enfiei minha chave no portão e ele se abriu dócil como um cachorro esperando a volta do dono. Adentrei pela porta desfalecida e não pude evitar um nó em minha garganta ao ver a casa esvaziada. As paredes nuas, com suas rugas e estrias expostas, tinham envelhecido muitos anos em poucas horas. Nelas e no piso ainda restavam as sombras desbotadas de meus móveis subtraídos.

 

II

 

Dormir no chão, sem nada para amaciar meu sono, não seria fácil. Outros problemas vinham à tona em meu pensamento: como me manter oculto, entrar e sair, estocar comida, tomar banho, etc. Bom, havia a piscina, o escuro da madrugada, as janelas… Ainda me seria mais confortável viver assim do que buscar outro lugar.

Meus piores problemas continuariam vindo de fora: já na manhã seguinte, fui despertado por barulhos na porta principal. Busquei esconderijo atrás de uma parede e observei: um senhor restaurou as dobradiças, os trincos, e trocou o segredo da fechadura – operação que repetiu no portão, onde uma mulher que o acompanhava pendurou uma placa. Após a partida dos dois, pulei pela janela para o quintal, escalei o portão e confirmei, observando de cima: uma imobiliária anunciava a venda do imóvel. Odiei a palavra imóvel – símbolo de uma carcaça cuja alma é a casa. Desamarrei os arames que prendiam o cartaz e o fiz em pedaços, jogando os restos no quartinho dos fundos. Ainda restara ali uma grande quantia de entulho, ignorada pelos meus despejadores. Apertei com raiva as chaves da casa em meu bolso, agora inúteis. Esfriei a cabeça e decidi entortar a folha de aço da janela de meu quarto, cuja divisa com os fundos era minha melhor rota de fuga. Precisava evitar que alguém a trancasse em alguma saída minha.

 

III

 

Arrancar o anúncio do portão não foi o bastante: outros corretores surgiam, com novas placas e novos clientes. Minha cruzada contra eles se mantinha, ora através de minhas retiradas estratégicas para o quartinho dos fundos, ora através de meus saques dos cartazes. No entanto, a casa provavelmente seguia constando no sistema de computadores das imobiliárias, contra o qual eu nada podia. Se não encontrasse outra forma de reagir, corria sério risco de perder meu lar de vez.

Como não podia evitar que os corretores e clientes visitassem minha casa, precisava encontrar alguma maneira de espantá-los quando viessem. Eu adoraria poder contar com aqueles guardas para arranca-los daqui como fizeram comigo, mas isso estava obviamente fora de cogitação. Então, veio à tona em minha lembrança outro terror recente, que poderia funcionar.

Fui ao centro da cidade na madrugada e me dirigi a um grupo de indigentes viciados. Não sei quantas pessoas havia ali; eram muitas, e por vezes difíceis de discernir dos abrigos improvisados que os cercavam. Uma massa disforme e suja de cobertores, entulho, rostos e roupas. A maioria mal me notou, e os poucos a se voltarem pareciam enxergar através de mim com seus olhos etéreos. Pensei que seria melhor simplificar minha fala, então apenas disse: “Eu tenho um lugar pra vocês.” Alguns responderam com murmúrios ininteligíveis, outros com uma mistura desconexa de queixas e ameaças. Percebi um vendedor próximo e dei a ele as últimas notas de minha carteira, em troca de um pouco de crack. Voltei ao grupo com a mão estendida, a droga como milho para pombos. Pouco a pouco, ia passando-a aos que me seguiam até em casa. Um adestrador de zumbis.

Quando finalmente chegamos, foi um trabalho hercúleo fazê-los escalar o portão e entrar pela janela do quarto. Servi de apoio para cada um, e seus corpos rançosos – mal capazes de se sustentarem – precisaram ser erguidos por mim no esforço mais repugnante que já fiz. Com todos instalados, percebi o quanto me desagradava esse novo arranjo, mas também como ele provavelmente seria eficaz em relação a meus objetivos.

 

IV

 

A manhã seguinte foi inesquecível: quando ouvi sons de pessoas chegando, ao invés de me esconder fiquei a postos na sala, pronto para ver sua reação a nosso grupo. No breve intervalo de tempo entre abrirem e baterem a porta gritando, pude ver suas expressões de horror e sua fuga em disparada. Vitória.

Meu sucesso não durou muito, no entanto. Logo a droga acabou e os viciados enlouqueceram, berrando e debatendo-se. Eu pedia calma, senão seríamos… Fui interrompido pelo som do que pensei ser mais um dos gritos estridentes, mas que tomou a forma sinuosa de uma sirene da polícia, com suas luzes azuis e vermelhas infiltrando-se nas paredes.

Precisaria lidar com os guardas novamente, e me senti um pouco mais preparado dessa vez. Esperei na sala, até o arrombamento da porta golpear de novo meus ouvidos. Fiquei desnorteado, tentei falar alguma coisa, mas mal gaguejei algumas sílabas senti o cassetete de um deles explodir contra minhas costelas. Meu corpo saiu todo do lugar, perdi o fôlego e vomitei uma mistura de bile, sangue e o pouco que havia comido. A mancha tenebrosa no piso foi minha última visão antes de apagar.

 

V

 

Acordei em um hospital. Encontrei minhas roupas no armário, vesti-as e saí logo dali. Creio que já era alta madrugada, pois não havia ninguém nos corredores além dos doentes dormindo em leitos improvisados. Voltei para a casa, escalei o portão enfaixado pela polícia, e da porta ainda mais depredada percebi não haver mais ninguém ali, graças a Deus.

Estar livre dos viciados era um conforto, mas não deixava de sinalizar a derrota de minha iniciativa. Não demoraria para a polícia liberar a casa para comercialização. Eu precisava encontrar um novo método de defesa – algo menos drástico, talvez, e mais duradouro. Percorri os cômodos observando os estragos deixados pelos indigentes. O pesar tomou conta de mim, mas não perdurou. Em um efeito estranho, me serviu como inspiração.

Fui até os fundos, peguei um balde, enchi-o com a água verde-musgo da piscina e o virei sobre o piso da casa; repeti o procedimento várias vezes, arrancando depois grandes nacos da imitação de madeira do chão, que molhado saía com facilidade. Espalhei todo o entulho do quartinho dos fundos pelos corredores internos. Despedacei os boxes de plástico e as cerâmicas. Passei a cagar e a mijar na sala. Por fim, encontrei uma nova serventia para as chaves da casa: descasquei toda a tinta das paredes. Ainda eram minha espada.

Não havia comprador ou corretor que permanecesse ali desde então. Eu me escondia por precaução, mas nenhum passava da sala principal. Com o tempo, nem vinham mais. Minha situação estava segura: ninguém ia querer morar nessa casa.

 

Curadoria: Luiz Ruffato/ Ilustração: Helena Terra.


Rafael Gallo

Rafael Gallo

Rafael Gallo é escritor, produtor musical e professor na área de trilha sonora. Seu livro de contos, Réveillon e outros dias, foi vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2011/2012 e o conto que lhe dá título foi um dos selecionados para integrar o segundo número da Revista Machado, na tradução para o espanhol. Como docente, atua na AIC - Academia Internacional de Cinema.


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