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O Crime do Padre Amaro

A sua dose de literatura

Escrito por Revista Pessoa em 22 de abril de 2013

OPÇÔES

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“Quando descia para o seu quarto, à noite, ia sempre exaltado. Punha-se então a ler os “Cânticos a Jesus”, tradução do francês publicada pela Sociedade das Escravas de Jesus. É uma obrazinha beata, escrita com um lirismo equívoco, quase torpe – que dá à oração a linguagem da luxúria: Jesus é invocado, reclamado com as sofreguidões balbuciantes de uma concupiscência alucinada: “Oh! Vem, amado do meu coração, corpo adorável, minha alma impaciente quer-te! Vem! Esmaga-me! Possui-me!” E um amor divino, ora grotesco pela intenção, ora obsceno pela materialidade, geme, ruge, declama assim em cem páginas inflamadas onde as palavras gozo, delícia, delírio, êxtase, voltam a cada momento, com uma persistência histérica. E depois de monólogos frenéticos donde se exala um bafo de cio místico, vêm então imbecilidades de sacristia, notazinhas beatas resolvendo casos difíceis de jejuns, e orações para as dores de parto! Um bispo aprovou aquele livrinho bem impresso; as educandas lêem-no no convento. É beato e excitante; tem as eloquências do erotismo, todas as pieguices da devoção; encaderna-se em marroquim e dá-se às confessadas: é a cantárida canónica!”

O Crime do Padre Amaro
Eça de Queiroz

 

 

Pedro Castello Lopes é músico e vive em Lisboa.

Neste curto trecho podemos apreciar a sua escrita elegante e o seu humor acutilante e feroz.
O romance está disponível no Project Gutenberg onde pode ser lido online ou fazer-se o seu download em: http://www.gutenberg.org/ebooks/31971

 

 

Compartilhe também sua dose de literatura. Para saber mais, leia aqui: http://www.revistapessoa.com/2013/03/flagrante-delitro/


 

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