Em bom comércio de sua dor, sem se valer de bandeja, e requisitando arte e técnica para o café posto na mesa, Graciliano Ramos trocou pela palavra escrita as humilhações, vácuos de afeto, injustiças. Lavrou terreno árido, levantou pedras e areia seca, lidou com caracteres árduos, tipografia malsã. Achou por bem deixar, além de ficções, memórias, não fossem elas esquecer-se pelo caminho. Assim, pela terra de seus lavores vêm Infância, Memórias do Cárcere, Viagem.
Se o propósito de mostrar ao mundo o processo da bárbara educação nordestina, anunciado em Memórias do Cárcere e efetivado em Infância, acalenta um projeto de felicidade, o percurso inclui uma perspectiva crítica da educação brasileira, com foco no processo de alfabetização e leitura. A máquina da leitura e da escrita mostra-se infernal para o menino de sete anos, que aprende o alfabeto sob mira de vara. Só bem mais tarde, é que a narrativa trazida por ventos de Europa e materializada no livro do serão doméstico traz para perto do garoto paisagens e seres que vão levá-lo à terra do alumbramento.
Alumbrou-se Graciliano com essa história sem nome nem autor, continuou com O Guarani e quanta capa e espada apareceu em seguida. Recebeu os contos das mãos de Jerônimo Barreto, naquela Viçosa monótona, perdida nas Alagoas em princípios do século XX. Tabelião de ofício, Barreto foi bibliotecário amoroso para o menino enguiçado, debruçado sobre palavras.
O menino cresceu, fez-se escritor, e, empenhado em comércio de que só se livraria com a morte, foi esticar pele pela vida afora.
Colega de ofício de Graciliano, estico minhas peles, busco meus contos, fantásticos ou não, que alumbrar-se é preciso, viver carece de planos. Nos planos coube a tal viagem a Macau, que nunca pensei fosse me mexer tanto. Mas mexeu. Um nanquim de Portugal passou a purgar sobre a baía de Hong-Kong, lanternas e dragões meteram-se nas caravelas do infante D. Henrique. Fantasmas que atravessam jardins e denunciam crimes, comportamentos devotos, submissos, incompreensíveis. Divisões sociais acirradas, as crias de portugueses com chineses parecendo o animal a meio entre lobo e cordeiro daquele conto de Kafka, adivinhos que causam perplexidade com seu saber não catalogável. Um mapa sobre outro, notas lusas em pautas chinas, aromas chinos em frascos lusos.
Quem, nesta terra, me daria a porção de ervas que se assombram ao meio-dia?










